REMISSÃO OU REMIÇÃO

Há uns dias, chegou a mim uma pergunta relativa ao par “remissão” e “remição”. Ambas existem? São equivalentes?

 

Diante da pergunta, prometi que faria uma postagem aqui no site sobre o assunto. E, como promessa é dívida, lá vai…

 

Para começo de conversa, ambas existem e, embora sejam parecidas, tanto na forma quanto no conteúdo, não são exatamente equivalentes, apesar de terem significativas interseções.

 

Os estudos sobre as origens dessas palavras apresentam controvérsias: o Dicionário da Academia de Ciências e Letras de Lisboa aponta origens distintas (“remição” viria de “remir” e “remissão” teria sua origem em “remitir”), ao passo que o nosso dicionário Houaiss indica que ambos têm origem no mesmo verbo latino “remir”, sendo diferentes as suas “entradas” no idioma. Segundo o Houaiss, “remissão” vem diretamente do latim, no século XIII, e “remição” tem sua aparição no século XIX, já na língua portuguesa.

 

Eu – pessoal, respeitosa e humildemente – fico com a explicação trazida pelo Dicionário da Academia de Lisboa porque considero que as diferenças de sentido existentes entre essas duas palavrinhas se explicam muito bem se levarmos em conta as suas diferentes matrizes: remir e remitir.

 

Vejamos: “REMIR” significa “tornar a obter”, “conseguir”, “libertar-se”, “eximir-se”, “expiar”; “REMITIR” significa “conceder perdão”, “indultar”, “ceder”, “dar por pago ou satisfeito”.

 

Observe que o ato de REMIR (ou seja, a REMIÇÃO) envolve um esforço daquele que a obtém (conseguir, expiar, libertar-se), ao passo que a REMISSÃO (ato de REMITIR) está ligado ao exercício daquele que a concede (conceder, ceder, dar…), independentemente do mérito ou do esforço do beneficiário.

 

Assim, fica fácil entender que ambas as palavras têm em comum, além da constituição sonora (são homônimas homófonas), a ideia de um perdão, uma quitação. O que as afasta, no entanto, é que, na REMIÇÃO, esse perdão envolve um esforço daquele que é perdoado e, na REMISSÃO, esse perdão é uma concessão daquele que perdoa.

 

Resta-nos, ainda, entender o porquê do uso de “ç” em uma e de “ss” na outra. Nesse caso, relembro aqui as lições do querido professor César Guilmar, já postadas aqui no site (clique aqui).

 

A lição do professor César é a seguinte:

 

Se o verbo que dá origem ao substantivo terminar em TER, TIR, DER, DIR, MER, MIR, o som que precede o “ão” será grafado com S (ou SS, se for intervocálico), caso o T (das terminações verbais “ter” e “tir”), o D (das terminações verbais “der” e “dir”) ou o M (das terminações verbais “mer” e “mir”) não apareça no substantivo deverbal. Veja:

 

remitir – remissão (veja que a letra t da terminação do verbo sumiu no substantivo “remissão”)

 

Por outro lado, o som que precede o “ão” será grafado com Ç, caso o T (das terminações verbais “ter” e “tir”), o D (das terminações verbais “der” e “dir”) ou o M (das terminações verbais “mer” e “mir”) apareça no substantivo deverbal. Veja:

 

remir – remição (veja que o m da terminação do verbo continua aí em “remição”.)

 

Fique, agora, com um vídeo do nosso canal do YouTube:

 


Um abraço,

Prof.ª Dr.ª Patrícia Corado

 

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REMIÇÃO, REMISSÃO
6 Comentários
  • Vânia Rosa
    Postado 10:01h, 16 novembro Responder

    Parabéns!! Que aula!!! Bjs no coração

  • Rogerio Carneiro Campello
    Postado 14:05h, 11 junho Responder

    Sempre tive dificuldade nisso. Porque o resultado é o mesmo, uma quitação (você foi felicíssima no uso dessa palavra). Num caso, quitação por esforço pessoal, e noutro por concessão de outrem. Porque a definição que sempre me vem à cabeça é perdão (“reconheço um só batismo para a remissão dos pecados…” – e aqui é com dois esses, pois é conseguida através do batismo). Mas a remição não é propriamente um perdão, é como um ato heróico, de conquista.

  • Kátia Couto
    Postado 21:25h, 15 abril Responder

    Dica maravilhosa, professora.
    Gostaria que me tirasse uma dúvida sobre ser remido e ser remitido. A pessoa é remida se ela paga um ônus pelo perdão e remitida quando ganha o perdão sem ônus? Exemplo: Jesus foi remido porque pagou com a vida pela humanidade e esta foi remitida por Jesus porque não houve ônus para ela.
    Gostaria que me explicasse.

  • Língua Minha
    Postado 14:51h, 17 abril Responder

    Oi, Kátia! Obrigada pelo elogio! Quanto a sua dúvida, é exatamente o que você disse. REMIDO é particípio de remir, ou seja, é termo que designa aquele que teve uma quitação conquistada por esforço, por mérito próprio; REMITIDO é particípio de remitir e designa aquele que foi perdoado não por esforço próprio, mas pela graça, bondade, misericórdia de quem o perdoou.

  • Kátia Couto
    Postado 14:39h, 19 abril Responder

    Muito obrigada, professora. Pesquisei sobre o tema e achei sua explicação. Já me inscrevi em seu canal.

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