FORMAÇÃO DO IMPERATIVO

São frequentes dúvidas dos falantes do Português, de modo geral, acerca da conjugação de verbos no modo imperativo. Assim, muitas vezes as pessoas se perguntam (e também me perguntam… rsrs) se devem dizer “Ouça o que eu te digo.” ou “Ouve o que eu te digo.”, “Vê o que eu trouxe para você.” ou “Veja o que eu trouxe para você.”.

 

A formação do Imperativo Afirmativo no nosso idioma contempla as formas “ouça” e “ouve”, “vê” e “veja”, o problema na escolha correta de uma delas está assentado na forma de tratamento do nosso interlocutor, ou seja, a escolha entre uma das duas formas será determinada pelo fato de nos referirmos ao outro, a quem se dirige a exortação / o convite / a ordem / o pedido / o conselho / o comando expressos pelo verbo no imperativo, como TU (forma de 2ª pessoa) ou como VOCÊ (forma de 3ª pessoa).

 

Veja que em “Ouça o que eu te digo.”, a forma oblíqua “te” mostra que quem fala se refere ao seu interlocutor como TU (2ª pessoa), só que a forma “OUÇA” está conjugada na 3ª pessoa (VOCÊ), havendo aí o que se define como mistura de pessoas gramaticais. O ideal, portanto é que se diga ” Ouve o que eu te digo.”, onde o verbo (OUVE) corresponde a uma forma de 2ª pessoa.

 

De modo semelhante, quando dizemos “Vê o que eu trouxe para você.”, misturamos uma forma imperativa de 2ª pessoa (VÊ), com o pronome VOCÊ (3ª pessoa), havendo também mistura de pessoas gramaticais. Gramaticalmente mais adequado seria ” Veja o que eu trouxe para você.”.

 

Mas como saber se o verbo no imperativo está conjugado corretamente se, na maior parte dos casos, o seu sujeito fica oculto? (Para conhecer melhor os tipos de sujeito clique aqui.)

 

1) No Imperativo não existe a 1ª pessoa do singular. Não damos ordem à pessoa designada por EU. Quando damos ordens a nós mesmos, projetamo-nos numa outra pessoa, com a qual, imaginariamente, falamos. Assim, quando eu quero dar uma ordem a mim mesma, digo: “Patrícia, comece uma dieta urgentemente!!!!”. Perceba que eu não me designo por “EU”, mas por “Patrícia” e por “você”, que está implícito na forma verbal imperativa COMECE.

 

2) As segunda pessoas (TU e VÓS), no IMPERATIVO AFIRMATIVO, constroem-se com as formas do presente do indicativo, cortando-se a letra s do fim desses verbos.

 

Ex.:

Tu OUVES (presente do indicativo) => OUVE tu (imperativo afirmativo)

 

Tu VÊS (presente do indicativo) => VÊ tu (imperativo afirmativo)

 

Tu COMEÇAS (presente do indicativo) => COMEÇA tu (imperativo afirmativo)

 

Vós OUVIS (presente do indicativo) => OUVI vós (imperativo afirmativo)

 

Vós VEDES (presente do indicativo) => VEDE vós (imperativo afirmativo)

 

Vós COMEÇAIS (presente do indicativo) => COMEÇAI (imperativo afirmativo)

 

 

A exceção é o verbo “ser”, que no Imperativo Afirmativo tem as formas : SÊ tu;  SEDE vós.

 

3) Para as demais pessoas (3ª do singular, 1ª e 3ª do plural), usamos formas idênticas às formas do verbo conjugado no presente do subjuntivo.

 

Ex.:

Que ele OUÇA (presente do subjuntivo) => OUÇA você (imperativo afirmativo)

 

Que nós OUÇAMOS (presente do subjuntivo) => OUÇAMOS nós (imperativo afirmativo)

 

Que eles OUÇAM (presente do subjuntivo) => OUÇAM vocês (imperativo afirmativo)

 

Que ele VEJA (presente do subjuntivo) => VEJA você (imperativo afirmativo)

 

Que nós VEJAMOS (presente do subjuntivo) => VEJAMOS nós (imperativo afirmativo)

 

Que eles VEJAM (presente do subjuntivo) => VEJAM vocês (imperativo afirmativo)

 

Que ele COMECE (presente do subjuntivo) => COMECE você (imperativo afirmativo)

 

Que nós COMECEMOS (presente do subjuntivo) => COMECEMOS nós (imperativo afirmativo)

 

Que eles COMECEM (presente do subjuntivo) => COMECEM vocês (imperativo afirmativo)

 

4) No imperativo negativo, todas as pessoas coincidem com a forma verbal do presente do subjuntivo. Então, é só conjugar o verbo no presente do subjuntivo e levar essas formas para o imperativo negativo, que – não custa lembrar – tem o NÃO na frente, ok?

 

Um jeitinho mais rápido para conjugar o imperativo afirmativo, sobretudo para evitar a comum confusão entre a 2ª e a 3ª pessoa do singular, é o seguinte:

 

  • Com verbos de 1ª conjugação (AR):

 

O TU (2ª pessoa) terminará em A e o VOCÊ (3ª pessoa) terminará em E.

 

COMEÇAR => Começa tu => Comece você

 

ANDAR => Anda tu => Ande você

 

OLHAR => Olha tu => Olhe você

 

 

  • Com verbos de 2ª conjugação (ER) e de 3ª conjugação (IR):

 

Comumente (apenas comumente, às vezes você precisará recorrer à regra geral já exposta neste post, ok?), O TU (2ª pessoa) terminará em E ou I e o VOCÊ (3ª pessoa) terminará em A.

 

VER => Vê tu => Veja você

 

ABRIR => Abre tu => Abra você

 

CAIR => Cai tu => Caia você

 

Acho que esse “truque” ajuda um pouquinho, né?

Não poderia encerrar este post sem dizer a você uma coisinha muito importante: muitas vezes, nas nossas comunicações diárias, o uso das formas normativas do imperativo pode prejudicar as intenções comunicativas. Assim, quando dizemos “Faz um bife para mim!” há um tom muito menos autoritário do que em “Faça um bife para mim!”, construção que soa até como arrogante, não é mesmo? Desse modo, ainda que tratemos, como normalmente tratamos – pelo menos aqui no Estado do Rio de Janeiro -, nosso interlocutor por VOCÊ, costumamos preferir a forma FAZ à forma FAÇA, em razão de princípios da interação interpessoal que devem ser considerados nas nossas escolhas comunicativas.

 

Alguns reconhecidos nomes dos nossos estudos gramaticais reconhecem, em escolhas como essa, o uso do presente do indicativo (FAZ  – 3ª pessoa do presente do indicativo) em lugar do imperativo (FAÇA – 3ª pessoa do imperativo afirmativo) como forma de atenuar a “rudeza da forma imperativa” (Celso Cunha, 2007, p. 493).

 

Nunca é demais, portanto, lembrar que a língua nos oferece possibilidades para as diferentes ocasiões. Se você estiver em uma situação formal, ou em uma situação de prova, a opção por escolhas mais normativas é conveniente; se a situação for mais cotidiana, não há qualquer problema em fazer opções menos presas às normas e mais afeitas aos contornos comunicativos. Isso é o que o nosso mestre maravilhoso Bechara define como ser “poliglota dentro da própria língua”.

 

Vale aqui lembrar também a máxima de Dalai Lama, segundo a qual é necessário conhecer  bem as regras para quebrá-las de forma eficiente.

 

Fico por aqui!

 

Um beijo grande e até a próxima!

 

Prof.ª Dr.ª Patrícia Corado

Tags
Formação, Imperativo, Língua Minha
1 Comment
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    Postado 04:28h, 05 julho Responder

    Maybe “I Can Dad – A Fool’s Guide to First Time Dadding” haha

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