A flexão do infinitivo

A flexão do infinitivo constitui tema árido para estudantes e amantes da Língua Portuguesa. Muitas e muito frequentes são as dúvidas que envolvem a flexão ou não de formas verbais infinitivas.

 

O assunto é controverso e não encontra uníssono entre os mestres da teoria gramatical. São comuns abordagens que, embora orientem para não se fazer a flexão, reconhecem que, a depender da intenção, do desejo de dar evidência ao agente do processo verbal etc etc etc, o verbo poderia ser flexionado.

 

Sabemos que essas orientações normativas associadas a intenções comunicativas são lindas, pois revelam que a língua é um instrumento do falante – e não o contrário… Para concurseiros e para todos aqueles que são, diariamente, avaliados (também) pela forma como usam o idioma em situações formais, no entanto, esse “depende” soa como “bússola quebrada” para navegantes em alto mar.

 

Longe de mim querer eliminar as controvérsias do tema… O que trago neste post é tão somente uma tentativa de elencar critérios que coloquem as suas escolhas sobre a flexão ou não em terreno firme:

 

Então, vamos lá!

 

 

Em períodos compostos, o infinitivo de oração reduzida deve:

 

 

  • Ser flexionado se o seu sujeito for diferente do sujeito da oração principal.

 

 

Ex.:      O homem afirmou não existirem problemas.

 

 

Sujeito da OP: O homem

 

 

Sujeito da oração subordinada: problemas

 

 

Aquele juiz entendeu serem os réus culpados.

 

 

Sujeito da OP: Aquele juiz

 

 

Sujeito da oração subordinada: os réus

 

 

 

  • Ficar invariável se seu sujeito for igual ao sujeito da oração principal

 

 

Ex.:        As crianças foram convidadas a participar da festa.

 

 

Sujeito da OP: As crianças

 

 

Sujeito da oração subordinada: As crianças

 

 

 

Infinitivos precedidos de preposição, em regra geral, não devem ser flexionados:

 

 

Ex.: Os alunos não foram capazes de concluir a prova.

 

 

Vale lembrar aqui que, caso o infinitivo precedido de preposição venha antes da oração principal, será, no entanto, flexionado.

 

 

Ex.: Ao persistirem os sintomas, procure um médico.

 

Ainda com relação a infinitivos precedidos de preposição, aqueles que vêm depois da preposição “a”, participando de locuções e que têm equivalência a formas de gerúndio, não sofrerão flexão.

 

 

Ex.: Aquelas mulheres viviam a falar mal das vizinhas. (= viviam falando)

 

 

Por falar em locuções verbais, vale lembrar que, nelas, o infinitivo não deverá ser flexionado, ok?

 

 

Ex.:        Os pais não podem deixar os filhos desacompanhados.

 

 

Começaram eles a gritar sem motivo novamente.

 

 

Os alunos devem, hoje, ficar sob a responsabilidade dos professores.

 

 

Em formas passivas sintéticas, reflexivas ou pronominais, os infinitivos sofrerão flexão para concordar com seus sujeitos.

 

 

Ex.:        É comum as duas irmãs se agredirem. (Voz Reflexiva)

 

 

                O diretor fez seu pronunciamento antes de se esclarecerem os fatos. (Voz Passiva Sintética)

 

 

O aluno presenciou os professores se queixarem. (Verbo Pronominal)

 

 

Uma atenção especial merecem os casos a seguir, os quais chegam a causar estranheza ao usuário da língua:

 

 

I – Com verbos causativos (deixar, mandar, autorizar, permitir, fazer) ou sensitivos (ver, ouvir, sentir), a tradição nos orienta a não flexionar o infinitivo.

 

 

Veja:     Deixei os meninos sair. (O primeiro verbo é causativo, assim o segundo, no infinitivo, não se flexiona.)

 

 

                Ouvi os pássaros cantar. (O primeiro verbo é sensitivo, assim o segundo, no infinitivo, não se flexiona.)

 

 

II – Se você achou as construções acima estranhas, prepare-se para as seguintes… Em construções com verbo PARECER + INFINITIVO, você pode, com total correção, optar pela construção mais frequente, que é aquela em que se flexiona o primeiro verbo no infinitivo sem flexão: As meninas pareciam estar satisfeitas. Mas pode também, de forma igualmente correta, manter o primeiro verbo no singular e flexionar apenas o infinitivo: As meninas parecia estarem satisfeitas.

 

 

Espero ter ajudado…

 

Um grande abraço e até a próxima!!!!

 

Prof.ª Dr.ª Patrícia Corado

Tags
flexão, Infinitivo, Língua Minha, Língua Portuguesa
11 Comentários
  • Alberto Loreno Fracasso
    Postado 21:37h, 09 junho Responder

    Vi uma construção: para se deliciarem, reservam balas. Nao poderia ser “para se deliciar, reservam balas”? , por se tratar de um unico sujeito?

    • Língua Minha
      Postado 21:28h, 20 julho Responder

      Como a subordinada, nesse caso, está anteposta à OP, a flexão do infinitivo será feita.
      Abraço,
      Patrícia

  • marina de souza
    Postado 10:25h, 06 junho Responder

    Olá, professora Patrícia. Bom dia!
    recentemente vi uma frase que gostaria de saber se é o mesmo caso citado nessas explicações: “a alegria que temos ao conhecer cinema é incrível!”.
    Está certo o verbo conhecer sem flexão?
    Obrigada

  • Manoel Rocha Matos Neto
    Postado 22:29h, 28 junho Responder

    Oi, professora!!!
    No exemplo da voz passiva sintética acima, não consigo ver essa forma!!! poderia empregar a flexão do infinitivo obedecendo à outra regra que permite a flexão em caso de sujeitos diferentes de períodos compostos? O sujeito seria “fatos”, diferente de “diretor”. muito boa explicação. Obrigado. Só achei esse exemplo um pouco truncado!!!
    Valeu…

    • Língua Minha
      Postado 06:00h, 05 julho Responder

      Sim, Manoel! Ali as duas regras se aplicam. Isso acontece. Como eu disse no início do texto, a flexão do infinitivo é um terreno pantanoso mesmo. Há caso em que se aplicam até regras conflitantes… Obrigada pelo seu comentário!

  • Thais Monteiro
    Postado 12:46h, 29 setembro Responder

    Neste caso, a preposição impede a flexão? Ou a mudança de sujeito exige a flexão?

    Esse é um recurso que ajuda os aplicativos a manter o desempenho.

    ou

    Este é um recurso que ajuda os aplicativos a manterem o desempenho.

    • Língua Minha
      Postado 15:39h, 29 setembro Responder

      Thais, nesse caso a flexão é facultativa. Eu, no entanto, prefiro a forma não flexionada.

  • Iraildes Ferreira Bucek
    Postado 21:26h, 27 junho Responder

    Olá, professora! Por favor, me tire esta dúvida:
    Na frase – “No céu azul, as poucas nuvens estavam prestes a se esvanecerem.” – o infinitivo é um verbo pronominal reflexivo, porém é precedido de proposição e complemento de um adjetivo.
    Diante desses prós é contras, devo ou não lexioná-lo?
    Obrigada

    • Língua Minha
      Postado 06:06h, 05 julho Responder

      Oi, Iranildes! O terreno da flexão do infinitivo é, ás vezes, bem pantanoso, não é mesmo? Nesse caso aí, a tendência do português normativo contemporâneo é a flexão do infinitivo, prevalecendo a regra segundo a qual “formas passivas sintéticas, reflexivas ou pronominais, os infinitivos sofrerão flexão para concordar com seus sujeitos”. Alguns gramáticos normativistas, no entanto, diante do conflito de regras, indicam essa flexão como facultativa.

  • Iraildes Ferreira Bucek
    Postado 21:28h, 27 junho Responder

    Flexioná-lo.

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