O QUAL, A QUAL, OS QUAIS e AS QUAIS

O QUAL, A QUAL, OS QUAIS e AS QUAIS

 

Uma aluna muito querida me questionou sobre as (im)possibilidades de uso das formas pronominais relativas O(A)(S) QUAL(IS). Seria sempre possível usar tais pronomes no lugar do pronome relativo “QUE” ou haveria restrições? Os pronomes O(A)(S) QUAL(IS) podem ser usados em orações adjetivas restritivas ou são formas que devem ser usadas exclusivamente em orações adjetivas explicativas?

 

Vamos por partes porque a resposta não é muito simples…

 

Em primeiro lugar, esclareço que, didaticamente, para o reconhecimento de um “QUE” como pronome relativo, sugiro a substituição desse “QUE” por “O(A)(S) QUAL(IS)”, como você pode conferir AQUI. Trata-se, nesse caso, de um “macete” rápido para a identificação de uma palavra que, como sabemos, pode ter várias classificações e, por isso mesmo, é figurinha fácil em provas de modo geral.

 

Feito esse esclarecimento, é bom saber que as formas O(A)(S) QUAL(IS) podem ser irrestritamente usadas em lugar do “QUE” caso a oração adjetiva seja preposicionada:

 

Exemplos:

 

O livro de que mais gostei estava esgotado. OU O livro do qual mais gostei estava esgotado.

 

O assunto a que fiz menção era delicado. OU O assunto ao qual fiz menção era delicado.

 

OBSERVAÇÃO: Vale registrar que Celso Cunha indica ser preferencial o uso do QUE [e não O(A)(S) QUAL(IS)] antes das preposições A, COM, DE, EM e POR. (CUNHA, 2007, p.362)

 

As formas O(A)(S) QUAL(IS) serão usadas obrigatoriamente, por razões ligadas à eufonia, caso a preposição que antecede a forma relativa seja a preposição SEM, a preposição SOB ou qualquer outra preposição que tenha duas ou mais sílabas (ANTE, DURANTE, PARA, SOBRE…).

 

Exemplos:

 

O assunto sobre o qual conversamos exigia sensatez.

 

(E não “O assunto sobre que conversamos exigia sensatez.”)

 

Os anos durante os quais vivemos juntos foram inesquecíveis.

 

(E não “Os anos durante que vivemos juntos foram inesquecíveis.”)

 

Veja que, com relação ao uso preposicionado, não há qualquer restrição quanto ao fato de a oração adjetiva ser explicativa ou restritiva!

 

No tocante ao uso dos pronomes relativos O(A)(S) QUAL(IS) sem a anteposição de preposição, Celso Cunha afirma ser uma aplicação que deve se dar exclusivamente em orações explicativas (2007, p. 361).

 

Exemplo: As plantas, as quais precisam de água, merecem nossos cuidados diários.

 

Bechara não faz menção explícita a esse limite para uso das formas O(A)(S) QUAL(IS) e, ao tratar das imprecisões de sentido decorrentes do uso do “QUE”, chega a apresentar exemplo de uso do pronome O QUAL em uma oração adjetiva restritiva (“Arrastaram o saco para o paiol o qual ficou…). (BECHARA, 2000, p. 488).

 

O professor Claudio Cezar Henriques recomenda que se usem as formas O(A)(S) QUAL(IS) sem preposição APENAS para se evitar alguma ambiguidade, como em “Já resolvi o problema de sua irmã, a qual aliás me preocupava muito.” (HENRIQUES, 2008. P. 120). Veja que, se fosse usado o relativo “QUE” (“Já resolvi o problema de sua irmã, que aliás me preocupava muito.”), não se saberia se a oração adjetiva se refere à irmã ou ao problema…

 

Henriques não fala, explicitamente como Cunha, que o uso das formas O(A)(S) QUAL(IS) se limita às orações explicativas, mas é fato que tal ambiguidade tem maior ocorrência em orações desse tipo, uma vez que o relativo “QUE” tende a apontar para o substantivo que imediatamente o precede (BECHARA, 2010, p. 488), sendo a vírgula um recurso que, ao mesmo tempo em que caracteriza a oração como explicativa, separa o relativo do seu antecedente imediato, causando a possível ambiguidade, que pode ser desfeita pela flexão de gênero trazida pelas formas O(A)(S) QUAL(IS) e ausente na forma QUE.

 

É importante observar que Claudio Cezar Henriques define como “estilisticamente discutível” o uso dos pronomes O(A)(S) QUAL(IS) sem preposição em casos em que a ambiguidade não se faça presente, como em “São poucas as pessoas as quais querem realmente mudanças.” (HENRIQUES, 2008. P. 120)

 

Em resumo:

 

1 – Classicamente, os pronomes relativos O(A)(S) QUAL(IS) têm seu uso associado à presença de preposição antes da oração adjetiva (restritiva ou explicativa), sobretudo se essa preposição for SEM, SOB ou qualquer outra preposição que tenha duas ou mais sílabas (ANTE, DURANTE, PARA, SOBRE…).

 

2 – Para que se desfaçam ambiguidades e imprecisões semânticas, as formas O(A)(S) QUAL(IS) podem ser usadas sem que sejam precedidas de preposição.

 

3 – Como a ocorrência de ambiguidade é mais frequente em orações adjetivas explicativas, há a recomendação de que as formas pronominais O(A)(S) QUAL(IS) não precedidas de preposição se limitem a esse tipo de oração adjetiva.

 

Assim, esperando ter respondido à minha dileta aluna e no intuito de ajudar a todos os leitores deste site, indico que os pronomes relativos O(A)(S) QUAL(IS) sejam usados preferencialmente com a anteposição de preposições, sobretudo daquelas que não aceitam o pronome “QUE”. Quanto ao uso não preposicionado, fique atento! Limite-o aos casos em que a troca do “QUE” por “O(A)(S) QUAL(IS)” seja realmente necessária!

 

Por hoje, é só!

Um beijo e até a próxima!

Prof.ª Dr.ª Patrícia Corado

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A QUAL, AS QUAIS, O QUAL, OS QUAIS, PRONOME RELATIVO
2 Comentários
  • Martins Pena Gusmao
    Postado 20:51h, 19 agosto Responder

    Como quando ocorre a ambiguidade do pronome relativo “o qual e flexões” como na frase : aquela é a mãe da menina a qual é muito gentil Ha algum tempo, um professor falou-me que nesse caso o pronome “a qual” referia-se ao termo mais distante, ou seja, a “mãe”, entretanto, em pesquisas, alguns altores dizem que esse caso é um caso de ambiguidade incurável se usado o pronome o qual e variações, qual a sua posição?

    • Língua Minha
      Postado 11:18h, 21 agosto Responder

      Eu também defendo que, nesse caso, o melhor é reescrever com outra estrutura. Para mim, o sentido é questão de entendimento e, em “Aquela é a mãe da menina, a qual é muito gentil.”, pode-se entender que a oração adjetiva se refere à mãe ou à menina.

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